• Nelson Melo

Prisão Feminina em São Luís: relatos de escritora sobre a ‘mulher prisioneira’

Na clássica obra “A Metamorfose”, Franz Kafka descreve o cotidiano do caixeiro-viajante Gregor Samsa. Tudo na vida do personagem estava ocorrendo sem atipicidades extraordinárias, até que, em um belo dia, ele acordou “de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Do ponto de vista conotativo, isso pode acontecer conosco. Nas unidades carcerárias, essa possibilidade não é improvável. No livro “Prisão Feminina”, a bibliotecária Ana Sílvia Rodrigues de Sousa conta um pouco sobre o cotidiano das “mulheres prisioneiras” no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís/MA.





O livro "Prisão Feminina" faz parte da minha biblioteca e serve como fonte de pesquisa


Logo no início do livro, publicado em 2014, a autora descreve como foi seu primeiro dia de trabalho no Complexo de Pedrinhas, no dia 12 de outubro de 1988. Ela observa que, enquanto aguardava o ônibus que a levaria ao presídio, estava aflita e apreensiva, em virtude da “fama” que o cárcere tem historicamente, desde a prisão de Prometeu no Monte Cáucaso, após ter sido capturado pelos seres alados Cratos e Bia, que foram ajudados pelo ferreiro Hefesto. Na mitologia, o titã sofreu durante 30 anos, até que Hércules o retirou das correntes.



Da mitologia para a realidade, podemos notar muitas semelhanças. A escritora Ana Sílvia, por possuir a “História” em sua mente em forma de imagens coletivas fragmentadas, ficou cada vez mais nervosa à medida que o ônibus se aproximava do Complexo de Pedrinhas. Lá, como inspetora penitenciária, foi encaminhada para o Setor Feminino do Presídio. Na obra, a bibliotecária comenta que achou o ambiente estranho porque não havia grades, sendo que tudo era improvisado, isto é, sem nenhuma infraestrutura. A autora menciona que um quarto grande com banheiro e quatro camas servia como cela para as internas.



“Às 12 horas daquele dia, foi servido o almoço para as detentas. Nas bandejas de aço continham: arroz, feijão e carne. O cheiro da comida não era dos melhores e as internas, quando a viam, sempre reclamavam, e, assim, tanto comiam como estragavam. Tive, então, o primeiro contato com a gíria daquele mundo novo. A comida era chamada de ‘boião’. A nossa alimentação, que era feita separada, não era nem melhor nem pior, e isto gerou muitas polêmicas e problemas, pois eram encontrados desde ‘cacos de vidro até baratas’. Devido a estes detalhes horripilantes, a quantidade de comida jogada fora impressionava!”, escreveu ela na obra.




Todos nós podemos sofrer metamorfoses no dia a dia por conta de problemas emocionais



Ana Sílvia comenta que, com o passar do tempo, pesquisou sobre criminalidade feminina, a fim de entender um pouco sobre os mecanismos psicológicos daquelas internas. A partir de sua experiência, descobriu por que motivos a ressocialização não é eficaz, diferentemente do que afirmam na teoria. “Nessa ordem de ideias nada justifica a permanente e constante situação penitenciária, onde a problemática vai além das grades, dos muros e do concreto. Trata-se do ‘status quo’ de estereótipos sobre a criminalização e que não deixa de influenciar a pessoa que ‘opera no cárcere’”, analisou a escritora, que é formada em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Maranhão (Ufma).



"Biblioteca Prisional" a todo vapor



No livro, a autora disse que idealizou a “Biblioteca Prisional” para o Complexo Penitenciário de Pedrinhas. A iniciativa teve relação direta com a monografia que ela defendeu na Ufma, que discorreu sobre a biblioteca como fator de reintegração dos internos. Ana Sílvia Rodrigues, aliás, teve que viajar ao Rio de Janeiro para amadurecer a ideia, pois não encontrou em São Luís os materiais necessários para o seu trabalho acadêmico e para o projeto no presídio. Naquela época, o Pavilhão Feminino já havia sido inaugurado.




Foto que a escritora Ana Sílvia postou no livro com relação ao Pavilhão Feminino



Depois que o projeto avançou, já com a sala disponibilizada, Ana Sílvia iniciou uma campanha de doação de livros dentro do presídio para a “Biblioteca Prisional”. Depois, escolas forneceram obras para o ambiente. Entre altos e baixos, a biblioteca foi reinaugurada no dia 29 de novembro de 2002. Na avaliação da autora, a leitura oferece diversos benefícios aos detentos, como por exemplo o distanciamento do que a inspetora penitenciária denominou de “Síndrome do Tempo Passado”.



Não roube sua felicidade



O livro é um documento sobre a rotina das internas. O interessante é que essa descrição foi realizada por alguém que esteve lá dentro e conviveu com as “mulheres prisioneiras”. A partir daquela experiência, Ana Sílvia teve a oportunidade de descobrir como ocorrem as metamorfoses dentro do ambiente prisional. Gregor Samsa, como falei no início do artigo, não é um personagem fictício, pois está presente em qualquer circunstância, incluindo as mais triviais, como brincar de “travinha” na rua do bairro, fazer churrasco em um domingo e discutir com o taxista.



O intramuros tem efeito emocional tanto nos detentos como nos servidores/funcionários, devido à tensão diária. Eu converso bastante com pessoas que trabalham no Complexo de Pedrinhas. Todas elas relatam o quanto é difícil, psicologicamente, andar de um lado para o outro nos blocos, observando aquela paisagem hostil frequentemente. Por esse motivo, é importante procurar meios de externalizar aquela “energia”. Isso pode ser feito por meio de exercícios físicos aeróbicos, meditação, dança, artes marciais, viagens, piqueniques com a família, dentre outras atividades.





A corrida é uma das formas que utilizo para ganhar qualidade de vida no meu cotidiano


Eu faço diversas atividades para não ser vítima do estresse. A corrida de rua, por exemplo, é minha prioridade, sendo que a pratico há 10 anos. Filosoficamente, o trabalho é apenas uma parte da nossa vida, mas não é a nossa vida. Nós recebemos salário para termos qualidade de vida e não para sermos escravos de vínculos empregatícios. No serviço, devemos ter compromisso e empenho. Fora daquele círculo, devemos curtir os momentos prazerosos ao lado de quem amamos ou com quem temos afinidade. A civilização nos retirou do contexto “pré-histórico” com a promessa de felicidade. Porém, isso não aconteceu e nunca acontecerá, porque o instinto sempre se manifestará.



Mesmo se formos a Marte, para colonizar o planeta, levaremos conosco a nossa “História”, que foi construída a partir de renúncias e aceitações. Detectar um sentido para a vida é tarefa complexa. Sendo assim, nada mais reconfortante do que aproveitar cada segundo como se fosse infinito, porque jamais devemos negar que podemos ser felizes mesmo quando somos prisioneiros das nossas próprias crenças errôneas sobre o passado, presente e futuro.

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© 2019 por Nelson Melo.