• Nelson Melo

Professor analisa filme em livro que aborda religiosidade e filosofia 'pré-socrática'

Em seus estudos, o pesquisador e escritor Joseph Campbell mencionou o monomito, que está diretamente relacionado ao que foi denominado de “herói de mil faces” ou "jornada do herói". Na prática, esse fenômeno mítico reúne todas as narrativas do mundo, até mesmo aquelas antigas, em torno de um ponto que não seria o início, meio ou fim, pois se manifesta como um ciclo. Essa questão pode ser detectada no filme “mãe!”, do diretor Darren Aronofski. O professor João Paulo Furtado, da Universidade Ceuma, em São Luís/MA, analisou essa realização audiovisual em um livro, que será lançado em breve na capital maranhense.




João Paulo Furtado tem uma habilidade impressionante para fazer análises complexas




Mestre em Educação pela Faculdade de Comunicação Social e das Ciências da Educação pela Universidade del Salvador, Furtado, em entrevista concedida ao meu site, disse que o livro surgiu depois que ele assistiu ao filme de Darren Aronofski, também diretor de outras produções, como “Cisne Negro”, “Noé” e “O Lutador”. Então, a obra, intitulada “Mãe! Diálogos entre religiosidade, narrativas e alegorias na linguagem cinematográfica”, saiu da mente brilhante do docente em direção ao Word. Presumo que, enquanto digitava, o monomito circulava nas instâncias mais profundas da sua psique, em um processo inconsciente que, apesar de “cego”, é imprescindível para que a própria consciência adquira significados importantes para a sobrevivência humana no aspecto social.





Suponho que as imagens arquetípicas se mesclaram de tal forma que, com certeza, deixaram o professor João Paulo confuso e, ao mesmo tempo, lúcido sobre os personagens descritos no livro e no filme, sendo que, nas duas plataformas, essas imagens, repetidas desde a “explosão cognitiva” do pensamento abstrato - muito antes do aparecimento de Tales de Mileto -, são idênticas, apesar de apresentarem distinções. “É uma alegoria sobre a narrativa bíblica do Antigo Testamento, do Gênesis ao Apocalipse. O filme é representado dentro de uma casa, como se fosse um casal em conflito. É interessante porque ele exercita bem as questões das narrativas, das alegorias, enfim”, explicou o entrevistado.




O filme "mãe!" é a prova de que os limites entre o cognoscível e o incognoscível são tênues





Conteúdo provocante e filosófico





Especialista em Cinema e Linguagem Audiovisual e professor do Instituto Maranhense de Ensino e Cultural (Imesc), Furtado comentou que o filme não é de fácil compreensão, devido a vários fatores relacionados ao conteúdo, pois o público recebe, de maneira intensa, a presença da “indústria do personagem”. Isso significa que o telespectador, consciente ou inconscientemente, passa por um processo, digamos, catártico, no sentido de identificação com aquilo que está sendo exibido no que tange ao comportamento humano, especialmente na esfera emocional. Do ponto de vista afetivo, essa interação psicológica representa a violação da fronteira entre o “eu” e o “outro”, no âmbito psicanalítico.





O livro do professor João Paulo Furtado será lançado em breve na capital maranhense





“O público sente a angústia da protagonista, interpretada pela atriz Jennifer Lawrence, cuja personagem é chamada de ‘mãe’. Além dela, há o marido, chamado ‘Ele’, que representa Deus. Já ela representa a natureza, a criação, enfim. O filme é muito interessante porque é provocante em suas abordagens de linguagem e nas relações com os campos da Filosofia, e também para debater a influência do platonismo no Judaísmo e Cristianismo”, assinalou o entrevistado. João Paulo disse que, inicialmente, a análise foi colocada num artigo, mas, quando se deu conta, já havia escrito mais de 25 laudas.





Ultrapassando a barreira da imanência





Então, o artigo se transformou no livro. Para a obra, foi essencial o apoio da professora Jakeline Bogéa, que revisou o conteúdo no que se refere às questões filosóficas, incluindo a interpretação acerca dos pensamentos de Heráclito de Éfeso, que, assim como Parmênides de Eleia e outros denominados “pré-socráticos” (expressão que ainda causa polêmica), ocupou-se da physis, ou seja, a “natureza das coisas”, dentro de um viés cosmológico. Observa-se, nesse ponto, uma associação com o filme, pois o Universo já não seria mais movido por eventos aleatórios, tendo em vista que o mundo se torna, para a razão, regido pela imanência, o que retira qualquer possibilidade de explicação do cosmos por meio de princípios externos à realidade.





A mitologia em torno de Adão e Eva pode ser detectada no cinema e nas relações sociais




“A capa do livro foi um presente que ganhei do designer André Lima, um jovem muito talentoso do mestrado da Ufma. Isso ocorreu por meio da intermediação do professor e designer Márcio Guimarães”, mencionou Furtado. O professor João Paulo tem essa habilidade impressionante para adaptar situações literárias ou cinematográficas a contextos sociais, míticos ou religiosos. Para ele, os obstáculos não são intransponíveis. Na verdade, são trampolins, que permitem o avanço desse experiente docente em direção à transcendência de sua própria intelectualidade, rompendo, pelo menos temporariamente, a passagem até então bloqueada pela impermeável imanência.


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© 2019 por Nelson Melo.