• Nelson Melo

Professor da Universidade Ceuma analisa o cinema em um mundo pós-pandemia

Na década de 1920, o italiano (radicado na França) Ricciotto Canudo publicou o “Manifesto das Sete Artes”. O documento, até hoje, gera polêmica porque deixou alguns elementos de fora da lista, como a Fotografia e o Teatro. Felizmente, o cinema aparece no rol. Essa produção de imagens em movimento em formato com duração limitada está sofrendo os impactos causados pelo novo coronavírus. Sobre o assunto, eu conversei com o professor João Paulo Furtado, da Universidade Ceuma (São Luís/MA), que é especialista em Cinema e Linguagem Audiovisual. Na entrevista, o docente fez uma projeção do mundo pós-pandemia com relação ao setor.




O professor João Paulo Furtado é especialista em Cinema e Linguagem Audiovisual


Também professor do Instituto Maranhense de Ensino e Cultura (Imec), João Paulo começou a entrevista frisando que ainda não sabemos objetivamente quando a pandemia acabará. Até agora, nenhum vidente se arriscou e fez uma projeção, como ocorre com relação a outras questões – morte de celebridades ou generalizações sobre catástrofes. O fato é que as salas de cinema no Brasil fecharam as portas no final de março, em virtude da proliferação do novo coronavírus no País. De acordo com Furtado, as circunstâncias afetaram tanto o setor que houve o registro de faturamento zero em bilheterias no território brasileiro.



Segundo o professor universitário, essa situação é inédita na história do cinema brasileiro. Ele elencou alguns problemas com relação aos impactos da pandemia no setor. “Primeiro, temos, majoritariamente, cinemas de shopping, de galerias comerciais. Então, nós perdemos aquele cinema de rua. O que vemos, pontualmente, são centros culturais e alguns cinemas residuais que registram isso”, comentou João Paulo Furtado. O entrevistado, que é natural de Guarulhos (SP) – mas reside na capital maranhense desde criança -, salientou que, em 2019, nós tínhamos 3.500 salas de cinema, o maior número desde a década de 1970.




As salas de cinema vazias durante a pandemia levaram ao faturamento zero em bilheteria

“O problema é que, na América Latina, somos o pior país com relação ao número de salas de cinema pela quantidade de habitantes. Isso significa que já eram insuficientes. Precisamos dizer que o cinema sofreu muitos impactos no decorrer da história. Sofreu com a chegada da televisão, com a chegada do videocassete, com a chegada do DVD, com a chegada das mídias digitais e os canais de streaming”, desabafou o professor João Paulo. Segundo Furtado, ainda assim, apesar dessas situações, digamos, aparentemente desfavoráveis, as pessoas continuaram frequentando as salas de cinema.



Ritual da exibição coletiva


Na avaliação do docente da Universidade Ceuma e do Imec, essa audiência pode ser explicada pelo ritual da exibição coletiva, pois ainda existe aquela sensação de ir à sala escura, que envolve muitos eventos psicológicos e fisiológicos, como a concentração. Tudo isso, evidentemente, é uma experiência única, que desperta uma espécie de ficção dentro da realidade. Poderíamos até afirmar que é algo similar ao processo catártico, tão comentado por Aristóteles e Nietzsche no que se refere à tragédia grega, tendo em vista que as narrativas nos comovem e causam êxtase.



Essa sensação também pode ser explicada, na minha opinião, pela presença dos arquétipos no inconsciente coletivo, partindo para um ponto de vista mais junguiano (Psicologia Analítica). Por quê? Ora, porque o mito não é inventado. Na verdade, faz parte da experiência histórica, no sentido de possibilitar a identificação do expectador com relação a um personagem ou a uma cena dos filmes. Seria, por assim dizer, um momento de “conto de fadas” dentro do território da mente, que vive em constante conflito entre a civilização e o instinto, como se nossos desejos mais primitivos saíssem do campo inconsciente em direção ao ponto mais consciente da psique.




As salas de cinema possibilitam uma experiência coletiva que mistura ficção e realidade


Cinema na pós-pandemia

Furtado, na entrevista, assinalou que, sem sombra de dúvidas, o setor passará por uma “baixa”, mas, provavelmente, no intervalo de um ano e meio, irá se recuperar, em virtude do grande fluxo de pessoas que sairão de suas casas para buscar o entretenimento, ainda mais quando estarão “sufocadas” pelo pesadelo da Covid-19, que estará presente em nossos medos durante um bom tempo. “O cinema será uma das atividades culturais mais procuradas no ambiente pós-pandemia. A recuperação acontecerá não somente pela paixão cinéfila, como principalmente porque queremos uma distração, algo que nos dê um conforto. A pessoa sai um pouco da sua vida, vive um pouco o universo de um personagem do filme. E quando sai do cinema, ela tem a sensação de voltar à realidade”, ressaltou o professor.



João Paulo ainda comentou que, nessa pandemia, os trabalhadores estão sendo muito atingidos financeiramente, incluindo aqueles que atuam na bilheteria, na segurança, na limpeza e na alimentação. Ele explicou que as empresas estão mantendo um diálogo com o governo federal, para tentar conseguir uma linha de crédito emergencial, a fim de segurar a folha de pagamento. E também há as iniciativas de algumas redes de cinema, que estão “se virando nos trinta” por meio de outras alternativas, como o oferecimento de serviços delivery concernentes a algum item. Ou, então, por intermédio de parcerias com o iFood.




A "Sétima Arte" estimula o imaginário coletivo a partir das imagens (Imagem: Neurocine)


Em São Paulo, como Furtado exemplificou, uma empresa está vendendo ingressos antecipados já para o pós-pandemia. Isso mostra o quanto o setor está buscando de todas as formas sobreviver diante de um cenário pandêmico. “Acredito que as pessoas não perderão o interesse pelo cinema. Elas podem fazer isso em casa, pelo celular ou pelo notebook, mas ainda assim gostam de uma experiência coletiva. Enquanto a pandemia estiver assustando, com essa quantidade de mortes e várias sequelas em quem sobrevive depois de uma internação, as pessoas, claro, evitarão sair, porque o espaço das salas de cinema é fechado”, enfatizou o docente.



“Uma vez que for desenvolvida a imunidade ou a vacina ou um tratamento mais eficiente, as pessoas voltarão com tudo. Se a gente for observar direito, as pessoas não estão indo ao cinema porque realmente muitos estabelecimentos estão fechados. Perceba a quantidade de gente indo à praia, à boate, aos shopping, às vezes até sem proteção alguma, desleixando o uso das máscaras”, acrescentou João Paulo, um excelente profissional. Gostaria de frisar aqui a minha grande admiração pelo professor Furtado, devido ao trabalho que exerce na docência e na pesquisa.



Ele foi meu professor na disciplina de “Fotografia” no Curso de Comunicação Social da Faculdade São Luís (hoje Faculdade Estácio), na capital maranhense. Furtado é mestre em Educação pela Faculdade de Comunicação Social e das Ciências da Educação pela Universidade del Salvador. Ademais, João Paulo é especialista em Cinema e Linguagem Audiovisual pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e em Artes Visuais: cultura e criança pelo Senac.

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© 2019 por Nelson Melo.