• Nelson Melo

Professor de Filosofia elenca dificuldades para volta às aulas em São Luís durante pandemia

A pandemia da Covid-19, sem sombra de dúvidas, é um fenômeno que causou, está causando e causará muitas alterações no cotidiano dos vários segmentos da sociedade. Basta vermos as pessoas utilizando máscaras de proteção nas ruas para comprovarmos isso. Em São Luís/MA, as aulas presenciais em algumas escolas particulares foram retomadas, mas respeitando protocolos sanitários. Na rede pública da cidade, a previsão é que isso ocorra em setembro por meio do sistema híbrido. Ao meu site, o professor doutor Dídimo George de Assis Matos, que leciona na capital maranhense, fez uma análise desse cenário relacionado à educação.



Dídimo Matos é doutor em Educação e professor em São Luís nas redes estadual e municipal

Conforme Dídimo Matos, que é doutor em Educação, o campo do ensino não estava preparado e ainda não está preparado para a crise provocada pela pandemia da Covid-19, pois não há condições de que sejam tomadas medidas sanitárias com brevidade. Professor das redes estadual e municipal na capital maranhense, ele observou que, se entrarmos em banheiros de escolas públicas, por exemplo, poderemos notar que esses ambientes são conservados “aos trancos e barrancos”, em virtude da falta de investimentos na estrutura desses prédios.

“Imagine, então, manter as salas sanitizadas, em trocas de turno, em ter sempre à disposição água e sabão ou álcool em gel, depois do uso da sala de vídeo, na manutenção de filas com distanciamento para merenda. São coisas que as pessoas nem pensavam e que agora estão tentando estabelecer protocolos que solucionem a questão”, expressou o professor Dídimo, que atualmente está fazendo outro doutorado, em Geografia Humana, na Universidade de São Paulo (USP). Por este motivo, Matos acredita que as escolas em São Luís não estão preparadas para esse retorno amplo e irrestrito das aulas presenciais.


Escolas em São Luís estão medindo a temperatura dos alunos na retomada das aulas



“Não sei se conseguirá ficar preparada. Tem escola funcionando há anos que não consegue deixar nem o banheiro limpo. Eu não acredito que isso seja realizado em pouco tempo. A sociedade brasileira tem grande capacidade de adaptação, mas tem grande resistência a modificações simples na realidade”, pontuou Dídimo Matos. Ele utilizou, para explicar a situação, a simbologia do piolho: se um aluno aparecer com piolho na instituição de ensino, até que a direção tome uma providência, muitos piolhos surgirão dentro do contexto do ambiente escolar.

Analfabetismo funcional e tecnológico

Mestre em Filosofia, ele também falou sobre as diferenças entre as modalidades a distância (EAD) e presencial nesse contexto de pandemia. Para ele, os alunos não estavam habituados a essa mudança drástica, o que torna essa realidade um desafio grande, porque envolve capacidade de leitura e de interpretação de texto. “A gente tem que lembrar que temos um analfabetismo funcional que beira entre três a cada quatro pessoas no Brasil. Isso ocorre em uma porcentagem menor entre os professores, mas também é significativo. São pessoas que leem, mas não entendem muito bem o que leram ou simplesmente não entendem de maneira alguma”, frisou o doutor Dídimo Matos.

Como ele destacou, desses 75% de analfabetos funcionais, entre 30% a 40% simplesmente não conseguem compreender frases simples de um texto ou de um vídeo. Dentro dessa realidade, Dídimo mencionou o analfabetismo tecnológico, que igualmente é um desafio nessa pandemia, sobretudo entre os docentes em comparação com os discentes. “Os alunos têm uma familiaridade maior com essas questões, mesmo aqueles com renda menor. Já os professores mais antigos, que estão há mais tempo na profissão, têm alguma dificuldade em mexer e aprender essas tecnologias novas. São desafios distintos na ampliação das leituras para quem lê pouco, para quem tem problema de leitura. E ainda há o desafio da funcionalidade das tecnologias, para elaborar videoaulas ou para planejar na educação a distância”, comentou o professor.

Dídimo Matos pontuou que os alunos da rede pública têm mais problemas nesse contexto, que envolve o ensino em si e a estrutura da sociedade. “Dificilmente, um aluno da rede privada não tem computador em casa ou um tablet. Ele tem vários mecanismos de estudo. Dificilmente, ele não tem uma internet banda larga. O da rede pública tem acesso à internet, mas isso é limitado por um chip ou pela própria estrutura do celular. Existe aquele pensamento de que a internet dure uma semana. Pode ser que na outra semana ele não tenha mais esse recurso”, expressou o entrevistado.

O professor continuou dizendo que, além desse problema social, que se refere às posses do aluno, este também sofre de questões estruturais, uma vez que na escola particular já existe internet rápida, sendo que o discente acompanha os trabalhos no computador ou celular, nesse intercâmbio entre escola e residência. “Não vemos esse investimento nas escolas públicas, com quadros inteligentes, vídeos apresentados nas aulas, enfim. Isso é bem mais difícil. Essa ausência nas escolas é um fator que conta”, lamentou Matos.

Pós-pandemia ou "convivência pandêmica"?

Filósofo, o doutor Dídimo é cético com relação a uma pós-pandemia. Ele prefere se referir a uma “convivência pandêmica”. Para o professor, a Covid-19 não é um fenômeno que vai embora assim da noite para o dia. No entanto, o ser humano, inevitavelmente, terá que aprender a conviver com a doença, assim como já convivemos com a gripe comum. “Ainda assim, teremos um ‘normal distinto’. Na educação, por exemplo, as salas precisarão reduzir a quantidade de alunos, para mesclar as modalidades presencial e EAD. O coronavírus não vai simplesmente desaparecer, e não será de repente que teremos a vacina para todo mundo”, assinalou ele.


Dídimo prefere o termo "convivência pandêmica" a pós-pandemia para o futuro do planeta

O entrevistado disse que a Covid-19 será algo recorrente, ainda mais agora que estão falando em “segunda onda”, na qual pessoas que já contraíram a doença estão sendo reinfectadas, como é divulgado na imprensa. “Essa recorrência vai nos obrigar a termos modos distintos de encarar a educação, como as aulas presenciais com menos alunos, para manter o distanciamento. A educação a distância será cada vez mais presente. Essa modalidade, aliás, já estava tomando espaço nos processos educacionais. Isso será ampliado agora com essa pandemia, com a necessidade de evitar aglomerações, porque essa não será a última pandemia com a qual teremos de conviver”, explicou o professor Dídimo.

“Haverá outras doenças com as quais teremos que encarar. Aí, estaremos melhor preparados para esses tempos. Então, com certeza, a modalidade EAD será mais requisitada. Por um lado, vai ser até interessante porque teremos um bom teste para aquela ideia de que as salas são superlotadas. Não vai ter mais esse tipo de coisa. Vamos ver como esse discurso não funciona na prática, porque o problema da educação não reside aí. Ele reside em outros fatores, como ausência de leitura e ausência de acompanhamento”, finalizou o doutor Dídimo Matos.

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© 2019 por Nelson Melo.