• Nelson Melo

Proteger a mente contra o vírus é tão importante quanto proteger o corpo

Cada vez mais fica complicada a manutenção da paz interior, algo que fornece ao ser humano um pouco de segurança quando o contexto é desfavorável. Não dá para escondermos nossos sentimentos de angústia diante de um cenário modificado por parasitas intracelulares, que sacudiram a estrutura construída pelo gênero Homo como alicerce para a vida cotidiana. Esse “contrato social”, que mantém a civilização em níveis sofisticados e simples, está entre a cruz e a espada, ou seja, entre a esperança e o medo.


A máscara não vai proteger a sua mente do medo acerca do novo coronavírus



Thomas Hobbes (1588-1679) escapou do novo coronavírus, tanto do ponto de vista fisiológico como psicológico, mas suas teorizações sobre a natureza humana ainda são atuais. O filósofo não acreditava no dualismo ou na existência da alma, pois compreendia o ser humano como uma máquina, constituída de matéria e com funções que podiam ser explicadas por processos mecânicos, segundo Paul Kleinman. Para o pensador inglês, as pessoas evitam a dor e perseguem o prazer como um esforço na busca do próprio interesse.


De acordo com Kleinman, o filósofo acreditava que a moralidade não existia no estado natural do ser humano. Por este motivo, entendia o “bem” como algo desejado pelas pessoas, enquanto o “mal” seria algo evitado. Hobbes dizia que a esperança é a possibilidade de alcançarmos um bem aparente. Já o medo é o reconhecimento de que o bem aparente não será alcançado. Nesse sentido, a oscilação entre esses sentimentos seria o princípio definidor de toda ação humana.



Cuidar da saúde mental é tão urgente quanto cuidar da saúde física nessa pandemia


Em contexto de pandemia de coronavírus, que causa a doença Covid-19, as pessoas parecem se comportar como se a esperança estivesse distante, para além da criatividade humana. Por esse pensamento, a História teria sido uma farsa, uma vez que as conquistas civilizatórias, desde o domínio do fogo ou confecção de instrumentos de pedra lascada, não seriam suficientes para uma vitória sobre um “inimigo invisível”, que entra em nossas mentes mesmo quando estamos protegidos por máscaras cirúrgicas e álcool em gel.


A civilização, nesse cenário devastador, estaria por um fio. O que alimenta essas ideias são os pensamentos negativos. Querendo ou não, a “mitologia” produzida pela imprensa mundial contribui para que o medo prevaleça sobre a esperança. A quantidade de recuperados não é levada em conta. As manchetes sobre a quantidade de infectados são mais importantes. E quando as notícias sobre cadáveres transportados em caminhões das Forças Armadas ou jogados no meio da rua se espalham, o público, que já está temendo ser contaminado, fica horrorizado com uma informação que o próprio receptor deseja, inconscientemente, saber.


O mundo fica pequeno diante de tanta dor. O sofrimento é coletivo. A saúde mental entra em colapso quando o morador é bombardeado de notícias negativas e também de fake news. O ser humano prefere acreditar que em determinado hospital médicos e enfermeiros estão contaminados pelo coronavírus do que na outra versão. Nesse ponto, pesa mais a informação que favorece o medo. A esperança fica no meio do caminho, como a pedra mencionada pelo poeta Carlos Drummond de Andrade.


A insistência da pessoa em acreditar na notícia negativa comprova que a esperança não é mais necessária para manter o “contrato social”. Se esse cidadão observasse uma luz no fim do túnel, certamente iria concluir que é um trem se aproximando. O pessimismo é um passo para o “Inferno”, um lugar rejeitado e, ao mesmo tempo, acolhido nas profundezas do campo mental. A alma, dentro da referência da Psicologia, é o ponto de partida para a escolha entre a saúde e a enfermidade.


Nós pensamos melhor nos problemas quando as emoções não estão contaminadas


Na Grécia Homérica, o corpo era visto como um aglomerado de membros, representados no ritmo dos seus movimentos, bem como na força de sua musculatura. O “coração” citado pelo poeta grego se referia, já naquela época antiga, aos sentimentos e afetos, instâncias que o Homo sapiens está contaminando com pensamentos negativos sobre um presente comprometido e um futuro incerto. A batalha de sensações e percepções não tem favorito em termos de vitória, mas alguém pode perder somente pelo fato de não permitir que a esperança supere o medo.


Precisamos enxergar o lado preenchido do copo, que não está vazio. O que é urgente no momento é a saúde mental. Se suas emoções estiverem sadias, será mais fácil observar a situação por um ponto de vista imparcial. A melhor notícia é que você tem controle sobre as informações que recebe, selecionando o que é útil e descartando o que é inútil. Permita, portanto, um tempo para uma conversa consigo mesmo e reconheça que sua “alma” está perto do “Paraíso”.

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© 2019 por Nelson Melo.