• Nelson Melo

Quando a guerra acabar, estaremos prontos para o combate

“O cara mais casca grossa do mundo”. David Goggins é conhecido assim na internet. Ex-dedetizador de baratas, ele conseguiu, após muito esforço, concluir três tipos de treinamentos considerados muito difíceis: dos SEALs da Marinha Americana, a USA Ranger School e o de Controle Tático da Força Aérea (TACP). Uma das lições do ex-militar norte-americano é que devemos fazer o que tem que ser feito mesmo quando não temos vontade. Isso é fundamental nos vários aspectos da vida cotidiana, incluindo o campo profissional, que é tão volúvel quanto as nuvens. Afinal de contas, a guerra também ocorre no plano simbólico.



A guerra não foi inventada pela civilização porque o inconsciente nos conduz ao combate



Esse pensamento de David Goggins é muito válido quando o encaixamos em determinadas situações. Eu, por exemplo, trabalho de segunda-feira a sexta-feira, no turno vespertino e início da noite, no Jornal O Estado. Aparentemente, tenho a manhã livre, mas não é bem assim. Além de repórter, eu exerço outras funções, pois faço palestras sobre o crime organizado e assuntos correlacionados. Também desenvolvo minha pesquisa acerca das facções criminosas no Maranhão.


Converso com minhas fontes durante o dia, para me atualizar sobre as movimentações das facções no terreno, ou seja, em termos de ocupação, contrainformação, exfiltração, infiltração, ofensiva, contraofensiva, resistência, alianças, traições, enfim. Até quando estou no jornal ou em alguma pauta, eu e meus contatos dialogamos. O meu objetivo é apenas coletar informações para a compreensão do fenômeno do crime organizado, mas estritamente para fins acadêmicos. A Criminologia é a minha grande base para esse entendimento.


Eu não sou policial. A minha tarefa é pesquisar. O objetivo da segurança pública com relação à criminalidade é prevenir e combater. O meu é entender, a partir de uma proposta científica. Para essa tarefa, eu faço o que tem que ser feito, mesmo quando não tenho vontade. Se o processo não seguir essa linha de raciocínio, a metodologia ficará tênue, na iminência de ser atingida por uma falha. Um dos grandes obstáculos é o medo. Porém, cada minuto que respiramos é uma oportunidade para sermos úteis à sociedade e a nós mesmos.



O treinamento nos prepara para os imprevistos em um mundo repleto de dúvidas



Eu tenho uma rotina de treinos, que inclui exercícios como pular corda, corrida, barra fixa, ABS, agachamentos, tiro em aclive, subida/descida de escadas, flexão de solo, Dips, remada australiana, tríceps banco, dentre outros. Aos domingos e feriados, também faço essas atividades. Mas o nosso cérebro é “preguiçoso”. A ideia é ficar em casa deitado até mais tarde. Depois, tomar café às 11h e ligar a TV. Ou procurar na Netflix algum filme interessante. À tarde, dormir novamente. Já à noite, o sujeito sai do lar para comer uma pizza, um hambúrguer ou um espaguete.


O esforço físico ocorre no âmbito da sobrevivência, arquetipicamente falando, pois, depois que o animal é abatido na selva, o ideal é descansar longos dias até que novo ciclo de caça recomece. Com o progresso da civilização, outro aspecto motivou as pessoas: a vaidade. Afinal de contas, o ato de se olhar no espelho e verificar um corpo sarado é até catártico. O fascínio pela escultura “David”, de Michelangelo, representa o retorno ao conceito do belo, pois Dionísio é considerado pueril com relação a Apolo.


A questão não é vivermos tendo como parâmetro a perfeição, porque isso não pertence ao nosso mundo. Na Terra, somos incompreensíveis. Coletivamente, estamos confusos com relação à condição humana. O sentido da vida não é procurado nem quando estamos no melhor momento da carreira. Eu posso correr 20km, mas esse percurso não é suficiente para me deixar satisfeito. Por quê? Ora, porque não existe limite para nossa vaidade.



O fascínio pelo belo é ao mesmo tempo um alívio e um sofrimento para quem contempla



O herói grego é um ideal de crescimento e amadurecimento. O vinho é uma distração, pois o sujeito deseja a vitória. Aquiles e Ulisses são comportamentos. Eles não são personagens. A dúvida não é a certeza da ausência do conhecimento. Quando estivermos realmente prontos para o combate, então a guerra já terá acabado.

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© 2019 por Nelson Melo.