• Nelson Melo

Quando o rato sorri do gato há um buraco perto

Dizem que o mundo é dos espertos. Essa ideia, pelo que resgatei no meu inconsciente, acompanha a humanidade desde o momento em que Odisseu se fingiu de louco para ser dispensado do “serviço militar” durante a Guerra de Troia. Conscientemente, não sei a origem desse pensamento. O fato é que tudo na vida parece estar vinculado à sobrevivência não apenas física, como, também, psicológica. Vencer o inimigo pode representar o nosso próprio fim. Emocionalmente, o rato se sente seguro ao sorrir do gato quando há um buraco perto. Fora desse contexto, a situação é bem diferente.

A farsa de Odisseu foi descoberta rapidamente quando seu filho pequeno ficou sob ameaça de morte por um companheiro militar grego. Mas, nas imediações de Troia, o herói não retirou sua máscara e continuou atuando com esperteza, tanto que, ao descer da embarcação, jogou seu escudo e pisou em cima do objeto, pois, segundo a profecia, o primeiro que colocasse seus pés na faixa de areia daquele lugar seria morto imediatamente, o que aconteceu com outro personagem, que não tinha a astúcia de Ulisses. Ele queria apenas sobreviver, mesmo que por mais tempo, tendo em vista que, em contextos de guerra, ninguém sabe quem voltará vivo.

O rato se sente seguro ao provocar o gato quando há por perto um local para se esconder

É dessa forma que o ser humano escapa de diversas situações, ou seja, quando coloca a astúcia acima da bravura. Aquiles não levou isso em consideração e confiou na sua fama de semideus. Porém, não conseguiu “ver com seus próprios olhos” a destruição de Troia, uma vez que morrera atingido por uma fecha desferida por Páris, que teve a ajuda do deus Apolo. De igual modo, Moisés só vislumbrou a Terra Prometida de longe, enquanto Josué adentrou no local. No entanto, o profeta que foi resgatado das águas do Rio Nilo era inteligente e abençoado.

O ser humano costuma agir como se Deus realmente jogasse dados. Nesse sentido, desafia o destino como se fosse um rio perene, no qual o curso d’água corre o ano todo. E quando se depara de fato com o perigo, finge demência. Ou, por outro lado, simula uma bravura inexistente, mas sempre quando há um buraco perto, para que possa se esconder caso a estratégia não funcione. É difícil para o rato admitir que o gato está em vantagem. Aceitar isso significa negar a existência, porque torna a morte uma circunstância cada vez mais próxima.


Ulisses conseguiu sair vivo de Troia porque colocou a esperteza acima da bravura

Ninguém quer sentir dor. O sofrimento é ignorado. A felicidade, embora seja momentânea, é a imagem da vida. Viver é algo simples somente na teoria, pois, na prática, é complexo. Jogar a granada e não ouvir o barulho do estrondo já deixa as pessoas com medo de serem abatidas. Somos levados, desse modo, pelos eventos. O maior erro do ser humano é achar que não é capaz de exercer uma tarefa sem ao menos tentar. Entre quedas e cicatrizes, o fim pode ser o início e o início pode ser o fim. O que dura para sempre é a ideia.

O pensamento não se evapora quando desistimos de um objetivo na vida. A realidade é mais imaterial do que imaginamos. O tênis que calçamos representa o conforto. O celular que usamos representa a vaidade. Na literatura, todos sabem que a maior dor do vento é não ser colorido. Apesar disso, ele não recua por não ser detectado visualmente. Sentir é o que realmente importa em um mundo onde o topo da pirâmide é a credibilidade. É difícil expressar isso em palavras, porque as emoções prevalecem, mesmo quando o buraco visto pelo rato não passa de uma miragem.

As nossas decisões acabam nos definindo e sempre nos levam à felicidade ou ao sofrimento

No fim das contas, o gato nem quer atacar, mas, devido à provocação, esse desejo instintivo supera a sua vontade racional. Tenha em mente que você não precisa exagerar para conquistar. Apenas confie na sua intuição e abra caminho em direção à imortalidade da alma, para que o corpo não seja marionete de um destino que nunca foi traçado.

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© 2019 por Nelson Melo.