• Nelson Melo

Quando os 'zumbis' encontram zumbis em um contexto de desordem

Uma situação hipotética que me deixa intrigado é a seguinte: como seria a Terra se uma catástrofe apocalíptica devastasse quase tudo, incluindo a vaidade do ser humano. Esse cenário seria a decadência do Estado em sua forma institucional. O fenômeno levaria o Direito para as profundezas da nossa mente. O que estivesse armazenado no inconsciente poderia ser convertido em civilização. Parece algo terrível, mas tem um sentido filosófico/psicanalítico interessante. Novos grupos humanos surgiriam ou seria cada um por si? Talvez, encontraríamos o zumbi que tentamos esconder de qualquer jeito.



Será difícil distinguir um zumbi de um "zumbi" quando o caos total predominar na Terra



A série “The Walking Dead” relata um contexto específico de destruição da moral e ética. Com o apocalipse zumbi, o planeta passou a ser ocupado por mortos-vivos, que perambulam pelas ruas sem um foco. É uma caminhada aleatória em direção a qualquer coisa. Essas criaturas não possuem percepção e muito menos razão. Um fato interessante é que andam em grupos, conhecidos como hordas. No entanto, não se configuram como uma sociedade, uma vez que não há vínculo afetivo, profissional ou familiar entre esses seres.


Esses zumbis são atraídos por um estímulo, que pode ser um barulho. Dependendo do local onde o som inicia, os mortos-vivos mudam de direção e se deslocam instintivamente. Entre eles, não existe raiva, ódio, amor, carinho, paixão, compaixão, tristeza, decepção, frustração ou, em um sentido mais civilizatório, a corrupção. O engraçado é que, fora do campo hipotético, pessoas se comportam exatamente dessa forma. Não estou falando de serial killer. Na verdade, são cidadãos considerados “normais” pelo sistema, mas suas personalidades são o contrário do que exibem.



O ser humano manipula as pessoas porque sabe que existem líderes e liderados no cotidiano



Entre o pensamento e a ação existe uma distância, que pode ser real ou simbólica. Em muitas ocasiões, pode ser proposital, quando a ideia é apenas sobreviver diante de uma ameaça. Essa conduta ocorre na esfera mais vulnerável socialmente e também na esfera mais favorecida. Esses “zumbis” têm sentimentos e emoções, mas o egocentrismo é tão severo quanto a vaidade. Comer a carne do outro significa, conotativamente, desprezar a comunidade como uma sensação ilusória. No terreno, seria agir por conta própria, mesma que isso custe o conforto de alguém que precisa se autoafirmar como um sobrevivente ao caos.


Um “zumbi” tem inveja daquela pessoa que conseguiu sucesso após momentos de esforço e dedicação. Além disso, utiliza o grupo apenas para reforçar uma imagem de herói, apesar de não possuir as habilidades necessárias para exercer a liderança. A derrota representa a segmentação de sua identidade, que é construída ao longo dos estágios do desenvolvimento etário. Por este motivo, todos querem vencer. É uma conquista que se desenrola por meio de uma narrativa lamentável. A ausência do concorrente seria o mesmo que invencibilidade, mas por W.O.


O individualismo é uma característica presente na estrutura ontológica das pessoas. Apesar da necessidade dos grupos, cada um tem uma ou mais metas na vida. Esses projetos são idealizados unicamente pelo sujeito. Crescer na sociedade acontece porque a civilização é a própria História. Temos em nossa mente os mitos e verdades sobre quem somos e de onde viemos. Para muitos, ser alguém significa ocupar uma posição de prestígio. Para outros, significa somente ocupar uma posição, independentemente se o lugar é confortável ou desconfortável.



O espelho pode nos mostrar uma imagem exagerada devido às exigências da consciência




A civilização é um evento social grandioso. Basta vermos a tecnologia em nosso cotidiano. Porém, essa ideia de progresso está além de um smartphone, filtro de barro ou tubulação. O pensamento em si já é um avanço diante de um contexto biológico repleto de defeitos. Sociologicamente, o ser humano fica cada vez mais recuado sobre o que sente. Receber ordens pode resultar na sensação de inferioridade ou na sensação de pertencimento.


Ninguém pede para nascer, mas, a partir do momento em que a luz se abre na mente, o sujeito se torna capaz de decidir sobre os rumos de sua vida, que pode ser medíocre ou satisfatória. Quando o apocalipse, no formato de “The Walking Dead”, realmente acontecer, será difícil discernir os zumbis dos “zumbis”. Afinal de contas, as atitudes não serão neutralizadas diante de um adversário que parece ser um espelho para quem nunca admitiu que possui a imagem do caos em sua própria face.

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© 2019 por Nelson Melo.