• Nelson Melo

Quanto mais mentiras você contar, de mais coisas terá que se lembrar

Atualizado: Jan 14

Uma das atividades que mais admiro é o trabalho infiltrado. O espião é sempre um elemento surpresa em uma guerra, seja internacional ou mesmo urbana. Como disse Robert Wittman, fundador da Equipe de Crimes contra a Arte do FBI, o policial precisa dominar seu tema e estar um ou dois movimentos à frente do seu oponente. Então, atuar disfarçado não é ser completamente “outra pessoa”. Quanto mais mentiras você contar, de mais coisas terá que se lembrar, como Wittman destacou em sua obra “Infiltrado: a história real de um agente do FBI a caça de obras de arte roubadas”, um livro espetacular e repleto de ensinamentos que, como jornalista, eu sigo para obter informações na minha pesquisa.



Livros da minha biblioteca servem para fundamentar minha pesquisa sobre facções


Eu nunca trabalhei de forma disfarçada, mas converso muito com quem atua assim, sobretudo com militares do Grupo de Serviço Avançado (GSA), da Polícia Militar do Maranhão. Eu gosto de aprender muito ouvindo. É algo que a Psicanálise nos orienta na prática clínica. Antes de ser agente do FBI, Robert Wittman trabalhou com seu pai no mundo dos negócios. Com as vendas, ele assimilou que se uma pessoa se interessar pelo produto, mas não gostar de você, não vai comprar. Por outro lado, mesmo que ela não adore o que você está vendendo, mas gostar de você, aí talvez acabe levando.


”No campo dos negócios, você precisa primeiro vender a si próprio. É tudo uma questão da impressão que você deixa”, destacou o ex-agente do FBI. Ele levou essa experiência nas vendas para o seu trabalho como infiltrado. Um dos seus falsos nomes era Bob Clay. Segundo Wittman, essa regra é fundamental: reduzir as mentiras ao mínimo, para sustentar o disfarce. Conforme Robert, o melhor agente infiltrado depende dos seus próprios instintos. “O uso do próprio nome pode protegê-lo caso você esbarre com um amigo ou colega que não sabe que você está trabalhando infiltrado”, comentou.


A partir desses passos, a amizade com o alvo é construída com naturalidade. Permanecer o mais perto possível da verdade é uma maneira de não estragar os objetivos de coleta de informações. Robert Wittman orienta que o policial tenha cuidado nos diálogos, pois é preciso ter a certeza de que aquilo que está sendo dito ao interlocutor pode ser confirmado ou seja tão pessoal que não possa ser verificado. Essa parte referente à construção da confiança é um aspecto importante para quem faz pesquisa na área criminal, como eu, por exemplo.


O pesquisador não pode ser notado pelo entrevistado como um profissional polêmico, que questiona de forma intimidatória ou arrogante. A conversa precisa ser agradável, para que ambos se sintam confortáveis em trocar informações. É uma recomendação que sigo com êxito na prática. O ex-agente da CIA Antonio Mendez, autor do livro “Argo – como a CIA e Hollywood realizaram o mais estranho resgate da história”, cita na obra que, na década de 1970, a agência trabalhou junto com um conhecido fabricante de aparelhos auditivos para criar um microfone pequeno o suficiente para ser colocado dentro de um projétil de calibre .45.


O objetivo era implantar o dispositivo de escuta em uma árvore que estava no pátio de uma embaixada estrangeira. “A questão, é claro, era que o microfone precisava continuar funcionar mesmo depois que a bala estivesse encravada na árvore. Levou algum tempo, mas no final das contas a empresa teve êxito no projeto”, ressaltou Mendez. O ex-agente da CIA destaca, em sua obra, que um espião bom é capaz de se integrar à paisagem. O profissional não deve ser aquele sujeito que atrai todos os olhares, e, sim, aquele que, depois de passar na fila do banco ou pelo caixa do supermercado, ninguém mais se lembra de sua aparência.

Em todo caso, os grandes profissionais infiltrados destacam que a “fórmula da amizade” é o ponto forte de quem realiza esse tipo de atividade. Como cita Jack Schafer em “Manual de Persuasão do FBI”, as pessoas se esquecerão daquilo que você diz ou faz, mas nunca se esquecerão da maneira como você as fez sentir. “Seres humanos são animais sociais. Como espécie, somos programados para buscar outros semelhantes. Esse desejo está arraigado em nossa origem primitiva, quando a união melhorava nossas chances de subir na cadeia alimentar ao sair de nossa caverna e lutar pela sobrevivência num mundo hostil e implacável”, pontua.


Em minhas palestras sobre o crime organizado, eu sempre falo que vivemos em uma “selva civilizada”. Por quê? Porque as características originais ultrapassam as fronteiras e o tempo histórico. Sempre existe um padrão de comportamento humano, independentemente das culturas. Podem ser detalhes ínfimos, mas suficientes para compreendermos uma pessoa no aspecto inconsciente. Esse conhecimento da natureza humana é essencial na minha pesquisa, pois me possibilita descobrir coisas em uma conversa com faccionados com o mínimo de estranhamento possível.


O nosso cérebro monitora, automaticamente, a comunicação verbal e não verbal, como salienta Jack Schaffer. Em outras palavras, quando as informações são avaliadas pelo interlocutor como normais e não ameaçadoras, a continuidade do diálogo é garantida. Então, para jornalistas ou policiais, a grande dica é: você nunca recebe uma segunda chance de causar uma boa primeira impressão. O momento é valioso. Uma conversa pode nos levar aos Campos Elíseos ou ao Hades. Se encontrar Caronte, não hesite em também estabelecer uma boa amizade com o barqueiro.

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© 2019 por Nelson Melo.