• Nelson Melo

Se tiver que lembrar às pessoas que você é, você não é

- Boa observação, Lee. Gerência não é algo que você faça para os outros. Você gerencia seu inventário, seu talão de cheques, seus recursos. Você pode até gerenciar a si mesmo. Mas você não gerencia seres humanos. Você gerencia coisas e lidera pessoas. Essas palavras, ditas pelo Irmão Simeão ao pastor Lee, mostram um pouco sobre o papel da liderança. Embora esse diálogo tenha acontecido em “O Monge e o Executivo”, também ocorre na vida real. Um líder não precisa mostrar que é líder. Basta apenas exercer influência sobre as pessoas.


Irmão Simeão, como era conhecido Leonard Hoffman no mosteiro João da Cruz, fez aquela observação ao ser questionado pelo pastor Lee sobre o fato de ele utilizar sempre as palavras líder e liderança no lugar de gerente e gerência. Depois de um debate interessante com o restante da turma que participava de um retiro espiritual, a definição de liderança ficou assim: é a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente, visando atingir aos objetivos identificados como sendo para o bem comum.


Com base na abordagem de Max Weber em “The Theory of Social and Economic Organization”, podemos dizer que poder é a faculdade de forçar ou coagir alguém a fazer sua vontade, por causa de sua posição ou força, mesmo que a pessoa preferisse não o fazer. Enquanto isso, autoridade seria a habilidade de levar as pessoas a fazerem de boa vontade o que você quer por causa de sua influência pessoal. Há situações em que alguém está em um cargo de chefia, mas não consegue, de jeito nenhum, ser respeitado pelos seus comandados.


De igual modo, alguém é comandado, mas consegue exercer influência sobre pessoas que estão no mesmo nível hierárquico ou até mesmo sobre quem está acima de sua posição em alguma empresa, escola, fórum, quartel, delegacia, igreja, enfim. Um líder atua no sentido de promover o desenvolvimento do grupo e de cada membro. Não é o interesse individual dele que está em jogo. Ao mesmo tempo em que pensa que faz parte da equipe, também cresce em todos os aspectos.



Um trabalho em equipe sempre produz resultados positivos para o grupo e os membros



Um cargo nunca pode ser percebido como eterno. Tudo é passageiro. Não se esqueçam de que as estrelas também se desintegram. Da morte, surge a vida. O tempo é precioso. Cada momento é uma oportunidade de autorrealização e confraternização. Na série “Lost”, enquanto os sobreviventes do voo Oceanic 815 estavam desunidos, os “Outros”, que já estavam na ilha muito antes da queda do avião, conseguiram movimentar as peças e colocar aquele grupo na roda. Por quê? Porque a regra entre eles era a união.


Somente depois que os sobreviventes, mesmo com personalidades distintas, chegaram a um denominador comum, conseguiram explorar a ilha. Eles perceberam que o inimigo não estava infiltrado. Na verdade, estava do outro lado do ambiente insular. Pelo mar ou por terra, o grupo fez incursões e alcançou o território dos “hostis”, como eram chamados. Depois, os dois grupos se uniram porque um adversário mais perigoso estava se aproximando: Charles Widmore, que já havia morado na ilha como “hostil” e tinha uma rixa antiga com Benjamin Linus por causa de liderança. Depois que Widmore foi expulso do local, Linus assumiu a chefia dos “Outros”. Sempre que ocorrem problemas internos em qualquer agrupamento humano, os resultados negativos afetam cada integrante.


Em delegacias ou batalhões policiais, essa regra histórica é mais válida ainda, porque a segurança pública está em jogo. Quando um superior toma sozinho as decisões de uma operação, sem consultar sua equipe, ele coloca em risco os liderados. A responsabilidade tem que ser conjunta. Mas isso só acontece se o início do processo for coletivo. Às vezes, uma opinião que não foi ouvida poderia representar o sucesso de uma diligência.


Agamêmnon era esse sujeito arrogante, prepotente, que se posicionou como chefe dos gregos na guerra contra os troianos. Ele quase colocou tudo a perder depois que se desentendeu com Aquiles (chefe dos Mirmidões), que se retirou momentaneamente dos combates. A discussão teve como pivô Criseide (Briseide), que foi tomada pelos aqueus como prêmio de guerra.



A disputa de vaidades entre Aquiles e Agamêmnon quase colocou tudo a perder na guerra



Aquiles só retornou com força total aos enfrentamentos depois que seu primo Pátroclo foi morto por Heitor em um duelo até desleal, porque o deus Apolo se intrometeu várias vezes para ajudar os troianos, sendo que quebrou a lança de Pátroclo e o deixou sem sua armadura. O atrito entre o líder dos Mirmidões e Agamêmnon, que depois se reconciliaram, é um exemplo de como a prepotência destrói relacionamentos, o que transforma um grupo em um campo de batalha. Psicologicamente, a arrogância não passa de vaidade.


Se, em “O Monge e o Executivo”, o empresário John Daily se transformou, passando de um “fominha” (como se diz no futebol) para um companheiro, isso também é possível fora da literatura, que apenas conta o que acontece na realidade. No final de tudo, Ulisses (Odisseus) tinha razão: Troia só seria conquistada com astúcia e inteligência, ao contrário do que Aquiles pensava, de que a muralha seria ultrapassada com força e bravura.


Aquiles e Ulisses, inclusive, discutiram intensamente por causa disso. Os argumentos entre ambos se tornaram tão agressivos que os dois rolaram no chão. Os outros comandantes aqueus tiveram que separá-los do corpo a corpo. Troia passou “dez anos” para ser conquistada pelos gregos. Muitas pessoas morreram nesse intervalo. Troianos e aqueus “jogaram de igual pra igual”, até que, como havia previsto Odisseus, a inteligência virou a partida.


Aquiles não presenciou a tomada de Troia, pois já estava morto. O astuto Ulisses, por outro lado, observou a cena de perto. Por isso que dizem que não é o mais forte que sobrevive. Pode demorar, mas alguém tem que vencer uma batalha ou uma guerra. Como diz um provérbio chinês, uma jornada de duzentos quilômetros começa com um simples passo.

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© 2019 por Nelson Melo.