• Nelson Melo

Uma 'quebrada' perdida representa menos poder para uma facção criminosa

O sentido de “quebrada” está relacionado à composição espacial de um determinado bairro, no contexto do crime organizado. O conceito é indissociável de outro: o de território. A guerra urbana eclode também para manter a posição das facções criminosas, em todos os aspectos. Um “QG”, que também pode ser chamado de “fortaleza” ou “base”, tem uma relação mais profunda com o bandido porque é considerado inexpugnável, tal como Troia, que acabou sendo invadida pelos aqueus depois que Ulisses teve a ideia de construir um cavalo de madeira sob inspiração da deusa Atena.


O verdadeiro significado da palavra humano é “animal pertencente ao gênero Homo”. Nos últimos 10 mil anos, nossa espécie de fato foi a única humana a existir na Terra. Porém, antes disso havia várias outras espécies desse gênero além do Homo sapiens, como destacou Yuval Noah Harari em sua obra “Sapiens - uma breve história da humanidade”. Doutor em História pela Universidade de Oxford, o autor observou que os humanos surgiram na África Oriental há cerca de 2,5 milhões de anos, a partir de um gênero anterior de primatas chamado Australopithecus.



Essa inscrição mostra como a "quebrada" tem o sentido de território para cada faccionado



“Por volta de 2 milhões de anos atrás, alguns desses homens e mulheres arcaicos deixaram sua terra natal para se aventurar e se assentar em vastas áreas da África do Norte, da Europa e da Ásia. Como a sobrevivência nas florestas nevadas do norte da Europa requeria características diferentes das necessárias à sobrevivência nas florestas úmidas da Indonésia, as populações humanas evoluíram em direções diferentes”, frisou o professor. Surgiram, por exemplo, o Homo rudolfensis (“homem do lago Rudolf”), o Homo ergaster (“homem trabalhador”) e, finalmente, o Homo sapiens (“homem sábio”).


Um bebê humano é indefeso. Portanto, depende dos adultos para crescer e sobreviver. Nos primórdios da humanidade, as mães necessitavam da ajuda de “vizinhos” para cuidar dos filhos pequenos. Esse fator possibilitou o desenvolvimento dos laços sociais, que resultaram na formação das comunidades. “Assim, humanos que viveram há 1 milhão de anos, apesar de seus cérebros grandes e ferramentas de pedra afiada, viviam com medo constante de predadores, raramente caçavam animais grandes e subsistiam principalmente coletando plantas, pegando insetos, capturando animais pequenos e comendo a carniça deixada por outros carnívoros mais fortes”, explicou Yuval Noah Harari.



Os sobreviventes da queda do avião se armaram para proteger seus territórios na série "Lost"



Com o passar do tempo, esse “medo constante de predadores” perdeu força no aspecto ontológico do ser humano, tanto que a arrogância/prepotência é comum nas sociedades. No crime organizado, esse processo é semelhante, uma vez que as “quebradas” se configuram como grupos ou tribos. Os faccionados, por meio dos “tribunais do crime”, impõem suas próprias regras para toda a comunidade, incluindo os criminosos e moradores. Ninguém escapa da “lei do cão”.


Na série “Lost”, assim que o avião foi atraído pelo magnetismo da ilha, ele se partiu em dois pedaços, que caíram em lados opostos do ambiente insular. Nos dois pontos, os passageiros, até então desconhecidos um para o outro, se desentenderam por vários motivos. Depois do estabelecimento dos laços sociais, se comportaram como grupos, ainda mais quando descobriram que não estavam sozinhos no lugar, pois pessoas, que foram chamadas pelos sobreviventes do voo de “Outros” ou “hostis”, habitavam o local há muito tempo.


Os “Outros” atacaram os sobreviventes dos dois lados da ilha, sendo que infiltraram membros entre os passageiros, para coletar informações sobre o modo como formaram os grupos. A ideia de comunhão entre cada agrupamento era muito forte. Isso foi crucial para que cada um defendesse seu território por terra ou pelo mar. Os “sentinelas” foram fundamentais nessa proteção.



Os "Outros" capturaram um sobrevivente da queda do avião por ter invadido territórios



No contexto do crime organizado, cada grupo se posiciona em um bairro para proteger o local do “alemão”, cuja ambição de tomar o lugar do inimigo é constante. O “outro” sempre será aquele que está fora da “quebrada”. É uma visão muito relativa. Porém, esse relativismo é o motivo social de tantos confrontos entre as facções criminosas. Ninguém quer perder sua posição. Os “olheiros” do tráfico são os “sentinelas” da “Ilha de Lost”. É uma verossimilhança impressionante. O mito apenas relata o que acontece na realidade, que, por sua vez, repete, historicamente, a conduta arquetípica de cada sociedade.


Uma “quebrada” perdida significa menos poder para uma facção criminosa. De repente, se, na porta de uma comunidade, aparecer, “do nada”, um cavalo de madeira, a primeira coisa que os faccionados farão é arremessar uma lança no ventre do “animal”, como fez o adivinho Laocoonte, ao desconfiar, em Troia, de que aqueus estavam escondidos dentro do grande objeto. Tudo pode ser uma cilada. Ninguém quer ser derrotado. Como os criminosos costumam falar: é sangue por sangue.

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© 2019 por Nelson Melo.