• Nelson Melo

‘Vício branco’: quando a cocaína passou a ser usada por narcotraficantes

Em um país preenchido por facções criminosas, o tráfico de drogas se estabelece como a principal atividade para manter essas organizações. No Maranhão, Bonde dos 40, Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e “Neutros” existem devido, sobretudo, a esse comércio ilícito de substâncias que, nas “quebradas”, transformam uma pessoa em “cliente”. A cocaína, sem sombra de dúvidas, é a “menina dos olhos” do crime organizado. O narcotraficante “Tio Patinhas”, conhecido nacionalmente, fazia até seis quilos de cloridrato com apenas um quilo de pasta-base, e com boa aceitação entre os viciados.


“Tio Patinhas” é citado pelo jornalista Allan de Abreu em sua obra “Cocaína – a rota caipira: o narcotráfico no principal corredor de drogas do Brasil”, um livro excelente. De acordo com o autor, o narcotraficante reuniu, em menos de uma década, um patrimônio milionário, que incluía onze fazendas Brasil afora, dois edifícios inteiros e casas de veraneio no litoral catarinense, uma construtora, um helicóptero avaliado em R$ 3 milhões e dezenas de carros de luxo. Tudo isso a partir de esquemas no atacado de transporte e manipulação da cocaína.

Conforme Allan de Abreu apurou com fontes da Polícia Federal (PF) e em trabalhos de campo fora do País, um quilo de cloridrato de cocaína (droga pura) era adquirido por US$ 1 mil na região de Santa Cruz de la Sierra. Já na fronteira com o Brasil, o preço dobra. Em São Paulo, é negociado a US$ 8 mil. Quando chega à Europa, vale pelo menos US$ 50 mil. “Uma diferença de 1.900% que se explica não pelo produto, mas pelos riscos que dezenas de homens assumiram para fazer com que o entorpecente chegasse ao seu destino final”, pontuou o jornalista.


Mas houve uma época em que não existiam inúmeros narcotraficantes no planeta Terra, muito menos facções criminosas. No final do século XIX, a cocaína era vendida apenas em pequenos frascos, de aparência inocente, na cor de âmbar, semelhante aos usados pelas antigas farmácias homeopáticas. De acordo com o também jornalista Domingos Meirelles, a droga circulava apenas no meio artístico, onde se copiavam os últimos modismos da vida profana que se levava em Paris (França). “O consumo era tão insignificante que não preocupava a polícia. O vício branco, como se dizia, era visto como uma boutade, uma espécie de extravagância intelectual, transgressão própria de gente que parecia viver no mundo da lua”, expressou Meirelles.


Em “Geografia Política das drogas ilegais”, Rui Ribeiro de Campos destaca que existem 250 espécies de Erytroxylum no mundo, mas somente duas sul-americanas contêm cocaína: a coca e o epadú. A “cultura da coca” (significa árvore em idioma nativo), como ele explica na obra, está ligada à identidade dos habitantes dos planaltos andinos, há mais de quatro mil anos. “Era usada para fins medicinais, rituais e para alimentação. O chá de coca ajuda a combater dor de cabeça e o mal estar da altitude; mastigar suas folhas atenua a dor de dente, ameniza a fome e a sede, além de conter ferro e cálcio”, assinala o autor.





Nos tempos pré-incaicos, prossegue Rui Ribeiro, era comum a colocação de pequenas bolsas (chuspas) repletas de folhas de coca para reconfortar o defunto em sua viagem para o outro lado. No século XV, espanhóis constataram que a planta era sagrada para os integrantes do Império Inca. Então, os colonizadores estimularam seu plantio quando perceberam que a folha ajudava no trabalho de camponeses e mineiros.


Segundo o autor, entre os anos de 1856 e 1860, o químico e farmacêutico Albert Niemann obteve o produto que hoje se conhece como cocaína, pela primeira vez na Europa. A fórmula, no entanto, foi estabelecida em 1862 por Wihelm Lossen. A partir dali, o entorpecente passou a ser utilizado na classe média alta. “Após a descoberta da cocaína, grandes laboratórios farmacêuticos da Alemanha e da Holanda passaram a importar grande quantidade de folhas de coca do Peru e da Bolívia. Entretanto, com a descoberta de alguns efeitos considerados perigosos, a coca foi proibida pela Convenção de Haia (1912). Atualmente, do ponto de vista econômico, a coca é a droga ilegal mais importante, embora não seja tão cara como a heroína e nem tão consumida quanto a maconha”, comentou o autor.


Importante destacar que a coca se tornou amplamente divulgada no século XIX, quando o comerciante corso Ângelo Mariani desenvolveu um “licor” à base de cocaína, em 1863. O líquido era consumido por vários escritores da época. Depois, o farmacêutico John Styth Pemberton lançou o refresco “Coca-Cola”, em 1886, em Atlanta, nos EUA. Em 1986, um derivado da cocaína, conhecido como “crack”, começou a entrar no país norte-americano, ao que Ronald Reagan inicia a “cruzada contra a droga”.


A cocaína fortaleceu grandes cartéis colombianos, especialmente o Cartel de Medellín, de Pablo Escobar, o “Patrón”. No Brasil, a droga favoreceu a expansão do Comando Vermelho, primeira facção criminosa nacional, que surgiu no final da década de 1970, no Presídio de Ilha Grande, Rio de Janeiro. As facções que atuam no Maranhão também não fogem à regra do crime organizado. Às vezes, esses grupos utilizam os “bois de piranha” para que um carregamento de cocaína passe e chegue ao destino.


O “boi de piranha” significa, na prática, que um carregamento de maconha, por exemplo, é lançado em direção ao ponto onde policiais estão esperando ou fazendo barreiras. Enquanto isso, uma carga maior de cocaína é conduzida pelos criminosos por outro percurso, que, geralmente, é uma estrada vicinal. Mas nem sempre isso dá certo. Em muitas situações, as forças policiais conseguem monitorar essa estratégia e dão o bote certo.


O resultado desse tráfico de drogas é a morte de várias pessoas. Por causa de dívidas, os “clientes” são executados pelos faccionados. É um problema que contém vários aspectos, incluindo o familiar, onde o usuário/dependente é projetado para o mundo. Se a rota do tráfico termina em tragédia, a História precisa ser estudada com mais cautela. Afinal de contas, o passado é o futuro usado.

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© 2019 por Nelson Melo.