• Nelson Melo

‘Viagem ao Centro de São Luís’: Antonio Guimarães e o resgate do passado

No século XIX, foi lançado “Viagem ao Centro da Terra”, um clássico da literatura mundial. O autor da obra, Júlio Verne, dá vida ao geólogo e professor Otto Lidenbrock, que pede ajuda ao seu sobrinho, Axel, após encontrar um pergaminho, a fim de desvendar aquele mistério. Saindo da ficção científica e entrando na realidade, também podemos fazer uma “viagem ao Centro de São Luís”, tendo como guia o escritor e historiador maranhense Antonio Guimarães de Oliveira. Em seu livro “Becos & Telhados”, ele nos proporciona uma experiência incrível ao nos colocar no passado sem a necessidade de uma caverna no meio de uma floresta, como ocorreu na série “Dark”.


A obra "Becos & Telhados" é uma autêntica fonte de pesquisa escrita por Antonio Guimarães

Na obra do escritor francês Júlio Verne, Otto Lidenbrock era docente na área de Mineralogia, sendo que encontrou um pergaminho precário, de autoria de um alquimista islandês conhecido como Arne Saknussemm. Com a ajuda do sobrinho, ele decifra o manuscrito e descobre o centro da Terra ao adentrar na cratera de Yocul de Sneffels, um vulcão extinto. Na Ilha do Maranhão, outro professor, de nome Antonio Guimarães de Oliveira, também faz uma exploração científica, mas no Centro de São Luís, já no século XXI. Lidenbrock e Guimarães possuem em comum a persistência e paciência para apurar os fatos com metodologias peculiares.

Antonio Guimarães, que é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM) e membro da Livraria e Espaço Cultural AMEI (Associação Maranhense de Escritores Independentes), disse, em entrevista concedida ao meu site, que sua pesquisa para o livro “Becos & Telhados” durou aproximadamente uma década, em virtude dos detalhes e outras questões que apurou seguindo o rigor científico necessário para um estudo sério. “Eu necessitava de encontrar a foto perfeita da rua. Eu abordo vários pontos, como ruas, avenidas, becos, praças, sobrados e seus moradores”, comentou o historiador.

Antonio Guimarães ao lado de Euges Lima (vice-presidente do IHGM) na Livraria AMEI



De acordo com o escritor maranhense, a sua pesquisa é bem ampla, pois envolve detalhes não apenas urbanos, como, também, sociais, uma vez que o contexto histórico é explorado em cada logradouro visitado. Como Guimarães pontuou na entrevista, em alguns momentos do levantamento, ele foi tomado por uma forte emoção, situação comum quando se realiza um estudo dessa magnitude. Arqueólogos, quando encontram algum artefato que estava perdido, também sentem algo assim, pois não se trata apenas de contar/narrar um fato. Ao mesmo tempo em que entra em campo, o pesquisador se autorrealiza porque coloca uma missão como prioridade, como foi o caso do geólogo criado por Júlio Verne.

Até mesmo no meu caso, quando consigo, por meio das minhas fontes, algum documento oriundo das celas de um presídio, fico satisfeito, de alguma forma, porque, a partir daquele material, consigo analisar o comportamento dos faccionados. A minha pesquisa tem como foco o crime organizado no Maranhão, com ênfase na conduta dos membros de organizações criminosas. Sendo assim, também sei um pouco sobre esse processo referente à investigação científica. “Alguns fatos me deixaram emocionado, como a descoberta do sobrado onde viveu o inconfidente Silvério dos Reis. Fica na primeira e segunda casa onde, atualmente, é a Praça da Criança”, revelou Antonio Guimarães.


O escritor e professor Antonio Guimarães é um ótimo historiador porque é um ótimo leitor

Segundo o historiador, a praça fica na esquina com a Rua de Nazaré, próximo ao Museu do Reggae, na Rua da Estrela, na região central de São Luís. Guimarães também citou outros momentos da pesquisa que o deixaram na iminência de um choro emocionado. Caso caíssem, as lágrimas de Antonio iriam lubrificar não seus olhos, mas os becos e telhados da nossa “Upaon-Açu”.

Vivendo da História, pela História e para a História

Antonio Guimarães é um pesquisador indo e voltando, como se diz na linguagem popular. Particularmente, eu o admiro muito, não apenas pela produção literária, como, também, pelos valores que vivencia e transmite, como por exemplo a humildade. Nesse sentido, “Becos & Telhados” não é a única obra do escritor maranhense. Nascido no Povoado Lago Limpo, no município de Lago Verde/MA, o membro da Livraria AMEI é autor, ainda, de outros livros, como “O Algodão no Mearim”, “O Parto da Insônia” e “O Arquivista Acidental”.


O historiador Antonio Guimarães se dedica à pesquisa de uma maneira admirável

Professor da rede pública estadual, onde leciona História, Filosofia e Ética, Guimarães também escreveu “Algodão: Ouro Branco (Tempo e Espaço)”, “A Fuga do Perfume: o existir não é difícil de ser visto”, “Estação Ecológica ‘Sítio do Rangedor’: uma proposta educacional”, “São Luís: Memória e Tempo”, “São Luís em Cartões Postais e Álbuns de Lembranças" e “Pregoeiros & Casarões”. Importante dizer que ele é membro efetivo das academias Poética Brasileira e Maranhense Maçônica de Letras.

No Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, ocupa a Cadeira nº 9, que tem como patrono o historiador Bernardo Pereira de Berredo e Castro. Por causa de pessoas como Antonio Guimarães, as máquinas do tempo nunca serão utilizadas, caso sejam inventadas, porque explorar o passado pode ser feito por meio de leituras e de visitas que nos permitem compreender o presente e organizar o futuro.

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© 2019 por Nelson Melo.